Oficiais do Exército e outras autoridades líbias renunciaram ou desertaram do regime do ditador - que perde força a cada dia, mas promete lutar até a morte
Libanês queima imagem de Muamar Kadafi em protesto contra o regime
Libanês queima imagem de Muamar Kadafi em protesto contra o regime (Saeed Khan / AFP)Aumenta a cada momento a  chance da promessa de "martírio" de Muamar Kadafi ser colocada à prova - na terça-feira, ele disse só deixaria o poder se fosse morto. Nesta quarta, seu regime tornou-se um pouco mais frágil, depois que oficiais do Exército líbio na região de Al Jabal al Akhdar, no nordeste do país, anunciaram sua adesão à revolta popular contra o ditador.




A debandada dos militares foi anunciada em um vídeo divulgado pelas emissoras de televisão árabes Al Jazira e Al Arabia. Importantes autoridades líbias, como ministros, diplomatas e oficiais de alto escalão das Forças Armadas, já renunciaram ou desertaram do regime do general Kadafi para expressar sua oposição à violenta repressão contra os manifestantes.
"Nós, os oficiais e os soldados das Forças Armadas de Al Jabal al Akhdar, anunciamos nossa união total à revolução popular", disse um porta-voz militar. Ele anunciou ainda o compromisso desses militares em trabalhar para proteger as instalações públicas e privadas na região. Além disso, assegurou que as Forças Armadas em Al Jabal al Akhdar, cuja capital é Al Baida, estão unidas à oposição.
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Emirado - Com a lealdade dos seguidores na balança, Kadafi vê o controle do país escapar às mãos. Fontes citadas pela rede Al Jazira na terça-feira já anunciavam que os opositores do regime tinham tomado o controle de Al-Baida, situada entre Benghazi e a fronteira com o Egito. O responsável de relações gerais do Ministério do Interior líbio, Naji Abu Hrus, advertiu que em Al-Baida foi proclamada a criação de "um emirado islâmico".
Nas últimas horas, pelo menos oito embaixadores líbios e outros diplomatas de alto nível renunciaram a seus cargos, insatisfeitos com a repressão aos protestos. Além disso, o ministro do Interior líbio, general Abdul Fatah Yunis, pediu demissão na terça-feira. Yunir incentivou abertamente as Forças Armadas a se unirem ao povo em sua luta, informou a Al Jazira. A seguir, a lista dos que já renunciaram ou desertaram:
- O ministro da Justiça, Mustafah Abdel Jalil, demitiu-se para "protestar contra o uso excessivo da força" contra os manifestantes, informou na segunda-feira o jornal líbio Quryna.
- O ministro do Interior, Abdel Fatah Yunes, renunciou "em solidaridade à revolução", usando uniforme militar, segundo imagens divulgadas na noite de terça-feira pelo canal Al Jazira.
- Representante permanente da Líbia na Liga Árabe há mais de uma década, Abdel Moneim al Honi anunciou sua demissão para "unir-se à revolução e protestar contra os atos de repressão e violência".
- Membros da equipe diplomática líbia, encabeçados pelo embaixador-adjunto da Líbia na ONU, Ibrahim Dabbashi, pediram ao exército líbio que derrube Muamar Kadafi, um "tirano" e "genocida".
- Dois caças líbios pousaram na segunda-feira no aeroporto de Valletta (Malta). Os dois pilotos afirmam ter desertado depois de receber ordens de disparar contra os manifestantes em Benghazi.
- O embaixador da Líbia nos Estados Unidos, Ali Aujali, anunciou na terça-feira que se nega a servir a um "regime ditadorial", pedindo abertamente a renúncia do ditador Muamar Kadafi, em entrevista à rede americana ABC.
- Na Índia, o embaixador Ali Isawi declarou à rede BBC que havia se demitido por não concordar com a violência "massiva" e "inaceitável" contra a população civil em seu país. Também acusou o regime de Kadafi de "recorrer a mercenários estrangeiros".
- Em Daca, o secretário de Estado de Relações Exteriores de Bangladesh informou ter recebido uma nota da embaixada da Líbia, informando sobre a demissão do embaixador Ahmed A. H. Elimam.
- Na Austrália, a embaixada líbia rompeu relações com o regime, segundo o jornal The Australian. "Representamos o povo líbio, mas não representamos mais o regime líbio", declarou o adido cultural Omran Zwed.
- Na Malásia, o embaixador Bubaker al Mansori condenou o "massacre" de civis e retirou seu apoio ao chefe de estado. "Já não somos leais a Kadafi, somos leais ao povo líbio", avisou.
- Na China, um diplomata pediu demissão e disse que todo o corpo diplomático líbio deveria fazer o mesmo, segundo a Al Jazira.
- No Marrocos, um diplomata que trabalhava no serviço de imprensa da embaixada em Rabat entregou o cargo para protestar contra "o extermínio diário do povo".
- Na Indonésia, o embaixador Salaheddin M. El Bishari anunciou sua demissão porque não consegue "tolerar" que o regime de Kadafi mate civis, conforme disse numa entrevista publicada nesta quarta-feira por um jornal de Jacarta.